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Gato com Vertigens

Um espaço com ideias para pensar, divertir e partilhar.

Gato com Vertigens

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O gato com vertigens é um blog que se destina a todos aqueles que tiverem algo de inteligente para dizer ou que queiram aprender mais sobre o mundo em que vivemos. Quer seja um comentário a uma notícia, um elogio, uma celebração, um desabafo ou uma denúncia, a sua opinião é bem-vinda.

 

Desabafo de um hamster

Discurso de um pequeno hamster que o dono deixou de achar novidade
Esta gaiola está tão suja, os jornais embolados, fedor de urina e fezes espalhadas, eu sei, mas não posso limpar. Isso é função do meu dono, mas ele não tem feito nada. Ele já não se importa comigo, acho que está enjoado de mim, sei que isso acontece: primeiro sou uma novidade, depois cansam-se. Humanos! O que me resta é viver como posso aqui dentro, e confesso que até já me acostumei. Já li diversas vezes as mesmas notícias desta página policial, decorei os crimes em todos os seus pormenores. Pelo menos não são anúncios dos classificados. Além do mais, é Verão, e o chão de metal da gaiola não me congela as patas.
Passo os dias zonzeando de um lado para o outro. Não há muitas coisas para fazer num espaço tão pequeno. De vez em quando aparo os meus dentes num canto da gaiola, para que não cresçam demais e perfurem o céu-da-boca, dilacerando o cérebro. Se eu comesse mais, não precisaria fazer isso, mas o problema é que até de me alimentar ele se esqueceu.
Lembro-me bem dos dias em que os meus potes estavam cheios de comida, sementes de girassol, cenouras, maçãs, todo o tipo de frutas... sempre. Às vezes até nozes, e era bom.
Eu sentia aquele cheiro e corria aos potes, antes mesmo dele fechar a gaiola. Ele ria, enquanto eu enchia as bolsas das minhas bochechas com aquela fartura. Agora já nem água eu tenho.
Ah, eu lembro-me tão bem quando ele trouxe os amigos para me ver e brincar comigo. Um deles me apertou demais e eu mordi-o. Desde então já não me tiram da gaiola. Mesmo assim continuei a ter comida e água, como sempre. Mas um dia o dono desapareceu. Será que foi porque eu mordi o amigo? Mas só fiz isso por que ele me apertou e doeu, tive que avisá-lo que não me sentia confortável nas mãos dele e essa foi a única maneira de fazê-lo soltar-me. Nunca mais senti o cheiro do meu dono... Desde então fico aqui no meio destes jornais sujos e dos potes vazios, à espera. Já pensei em dar uma volta na minha rodinha, como sempre fazia, mas já nem tenho forças.
Hoje decidi que não vou mais deambular pela gaiola, nem aparar os dentes… nada. Ficarei quietinho aqui no meio da gaiola, à espera. É tudo o que posso fazer. Talvez ele esteja com vergonha de voltar, pode ser. Se for isso, eu prometo que lhe perdoo quando aparecer de novo, com nozes, água e o caderno de cultura. Admitirei até que o amo, juro. Mas ele não volta, a porta do quarto não se abre, não escuto nem um ruído na casa, as janelas continuam fechadas. Não há-de ser nada. Um dia ele aparece.
Respiro fundo, deito-me e espero.
 

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